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Blogue do Leite Jr. (Jozefo Lejĉ)
 


O HERÉTICO E O ERÓTICO SEGUNDO RICARDO KELMER: UMA APRESENTAÇÃO DO ROMANCE O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE

O romance O irresistível charme da insanidade (http://blogdokelmer.wordpress.com/) pode ser lido como o enredo em rede. Trata-se de um romance de tese sobre a interdimensionalidade, numa história vivida pelo jovem cearense Luca, líder da banda Bluz Neon.

 

A trajetória de Luca tem início em seu descontentamento com o modus vivendi da sociedade burguesa. Embora não soubesse bem o que queria, já se configurava, o que não queria: "Um contínuo e angustiante esforço de se estabilizar e economizar dinheiro - era a isso que se resumira sua vida." (p. 13) Apesar dessa percepção, Luca não era capaz de romper de forma radical com a rotina de seu emprego numa gráfica. Mesmo com o sucesso de sua banda, o salto para o abismo da arte lhe parecia demasiadamente arriscado. A gráfica lhe garantia a sobrevivência e alguns prazeres. Para distrair-se desse impasse, Luca vivia seu hedonismo, alternando suas doses de uísque entre um caso amoroso e a animação noturna de Fortaleza. O hedonismo vem expresso no lema da banda: "Festa é o que nos resta." (pp. 14-5)

 

Entre o lema e o dilema, Luca dá um tempo para uma viagem às praias do Rio Grande do Norte. Em Tibau do Sul, ele encontra Isadora, jovem seguidora do Taoísmo. Para Isadora, eles teriam vivido um romance havia quatrocentos anos. E esse é o momento de virada existencial de Luca.

 

Entendo que esse encontro com Isadora é uma representação figurativa de uma oposição mais profunda. Trata-se da oposição entre natureza e cultura. A busca do cenário da praia determina o percurso do protagonista em busca não só da natureza, mas de sua natureza particular: "Enquanto admirava a paisagem, ele não pôde evitar de se comparar a ela, a Natureza não fazia força alguma para ser o que era, ao passo que sua vida era o oposto..." (p. 23) A presença de Isadora funciona como coadjuvante no percurso que levaria Luca ao encontro com a natureza ou, mais precisamente, com o caráter multidimensional desta. No mesmo contexto de busca existencial de Luca, há outra figuração da natureza, em oposição ao pragmatismo da cultura ocidental, expressa no Taoísmo, assim traduzido por Isadora: "- Filosoficamente falando, o Taoísmo é um modo intuitivo de entender a realidade." (p. 31)

 

Por sua vez, Isadora está naquela praia por acreditar que ali encontraria um amor vivido numa vida anterior. Nesta versão existencial, o antigo amante seria Luca. No entanto, Luca rejeita a ideia de uma vida passada com Isadora. Com seu violão, tenta o refúgio na segurança de seu mundo hedonista, em que a jovem poderia participar sem ameaças transcendentais. Por isso ele propõe "Um pouco de música para afugentar o além." (p. 25), reconhecendo o perigo de ser seduzido não só pelo corpo, mas pelas ideias estranhas de Isadora, como evidencia essa representação do olhar da jovem: "A insanidade tinha olhos cor de mel." (p. 28) Por sua vez, Isadora insiste no seu propósito de resgatar o homem perdido de seu passado.

 

Mas deixo com o leitor o restante da história, que se desenvolve em doze capítulos, alguns dos quais feitos em aparente retrospectiva de quatrocentos anos, quando Luca seria Enrique e Isadora seria Catarina. Disse “aparente”, pois a tese nega a linearidade do tempo; e dizemos “seria”, pois a tese multidimensional nega a reencarnacionista. A reencarnação é vista como ilusão do ego, como aparece antes do epílogo: "- Então não existe... / - Reencarnação. É uma ilusão do ego, que se identifica com a outra vida e entende isso como lembrança porque está preso ao tempo linear, onde passado, presente e futuro ocorrem em sequência." (p. 127) Se não há linearidade, aparece a possibilidade de mudar também o passado: "- Caramba... É possível alterar o futuro - concluiu Luca, espantado com a descoberta. - E também o passado." (p. 146) No epílogo, a tese é nomeada num diálogo entre Luca e Isadora: - "- Hummm... A multidimensionalidade da existência. / - Exatamente!" (p. 148)

 

Mas a multidimensionalidade vai além da tese. O próprio enredo experimenta a mescla de dimensões espaço-temporais. Transições diatópicas e diacrônicas aparecem a todo momento, seja num pressentimento de uma personagem, seja num sonho, seja na estruturação de capítulos inteiros. O romance é construído em rede multidimensional.

 

Feitas essas considerações sobre o enredo, espero que suficientes para despertar a curiosidade do leitor, passo a alguns traços estilísticos da obra.

 

Chamou-me atenção o recurso da hipérbole. Aqui a hipérbole aparece em símiles: "Ele se lançou sobre os seios daquela mulher com todas as mãos e bocas e línguas que possuía, como se fossem mangas maduras e suculentas e ele um miserável esfomeado." (p. 33) Neste outro trecho, a hipérbole é metafórica: "Ele ouviu surpreso a resposta e de repente a situação era uma boiada à solta, totalmente sem controle..." (p. 86) Já neste outro essa mesma figura aparece como sinestesia: "Luca tomou mais um gole, o líquido ardente machucando a garganta, a dor gelada reverberando no fundo da alma..." (p. 94)

 

Há exemplos de linguagem metafórica, conferindo-se um tom poético à prosa: "Caminhavam abraçados pela areia e as ondas vinham lhe lamber os pés [de Isadora], deixando conchas de lembranças." (p. 55)

 

Ainda no campo da linguagem figurada, há uma variante de humor. Neste trecho o humor é sugerido tanto pela personificação das cadeiras do ambiente boêmio como por um jogo onomástico com o nome de um dos componentes da banda: "As cadeiras já repousavam de pernas para o ar sobre as mesas e os últimos resistentes da noite pagavam suas contas no caixa. Junior Rível recebeu do barman os dois copos com uísque e pôs um deles no balcão, bem à frente do amigo." (p. 93)

 

O enredo é rico em elementos figurativos do Nordeste. Além das praias do Rio Grande do Norte (Tibau do Sul e Pipa), mostra-se a paisagem do Ceará, como as praias do Cumbuco e de Jericoacoara ou a lagoa de Uruaú. Não falta a noite de Fortaleza, em harmonia com o espírito noturno de Luca. Vale mencionar ainda o restaurante Colher de Pau, com o garçom Pereira: "Pereira, o oráculo." (p. 74) Outra curiosidade é que o autor é personagem da vida agitada de Fortaleza. E não seria descabido imaginar em Luca o alter ego do organizador do Cabaré Soçaite. "- Boa noite. Meu nome é Ricardo Kelmer e sou dono desse cabaré." (p. 84)

 

Literatura e música se completam, num enredo em que o protagonista é músico. É constante a inserção de trechos de letra de "blues" da autoria de Luca. Há referências a músicos do mundo real, como nesta passagem: "Enquanto Bebel olhava com Isadora os pôsteres e os cartazes dos shows, Luca pôs Ellis Mário para tocar e o som do sax preencheu suavemente o ambiente." (p. 87)

 

Erotismo e espiritualidade temperados numa prosa bem-humorada. Neobarroco? Pós-moderno? De minha parte, entendo o romance a um tempo herético e erótico. Herético quando traz um jesuíta que participa de uma sociedade secreta em nada identificada com a Igreja ou quando propõe o multidimensionalismo ao reencarnacionismo. Erótica pelas belas jovens de um mundo viniciano, onde a beleza é fundamental, onde a vida é vivida com prazeres a dois (Luca e Isadora), a três (Luca, Isadora e Bebel) e a três por quatro (Cabaré Soçaite). Afinal, como diz o livro da construção existencial de Luca, "Eram ideias nada ortodoxas, mas eram instigantes e ele sentia que / elas escondiam coisas profundas e reveladoras. Talvez um dia fizessem mais sentido." (pp. 142-3)

 

Lejĉ1

 

1 Leite Jr. ou Jozefo Lejĉ (José Leite de Oliveira Junior) – professor de Literatura Portuguesa e coordenador do Curso de Esperanto da Universidade Federal do Ceará: leitejr@uol.com.br.



Escrito por Lejĉ às 09h05
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